Em 30 Aug 2004, Fit 2004 escreveu:
MANIFESTO DOS SAPOS
O SOL NÃO É PARA TODOS!
Quem semeia ventos
Colhe tempestades!
Por que será que a Secretária de Cultura de BeloHorizonte, Sra. Celina Albano está se empenhando tanto nesta 7ª Edição doFIT 2004?
Ela, que sempre "posou" de rainha, plantada no alto de sua torre, ignorando a falta de verbas, justificando sua inoperância?
Ela, que pouco dialogou com a classe artística, semeou a discórdia, e, autoritária, perseguiu, discriminou, puniu os que lhe opuseram segundo critérios arbitrários e personalistas? Ela que vem assistindo nossa cultura esvair-se pelo ralo, sem nem mesmo perceber o que está acontecendo? Ela, que
de tão inexistente, julgávamos "morta"!?! Então, surge o FIT e com ele
o milagre! Aquela que julgávamos fora da cena, fez-se nova e como Lázaro reviveu! Eis o milagre da ressurreição!
De repente a nossa Secretária de Cultura se empina, toma as rédeas do FIT e cavalga desatinada, sobre as nossas cabeças, alardeando sucesso, ostentando precocemente o troféu da vitória!
Mas quem é essa nova figura despontando assim tão luminosa no horizonte? Uma Fada Madrinha? Uma Mulher Maravilha?
Num "susto" ela ficou valente, levantou verbas almejadas, nunca antes alcançadas, (O FIT 2004 foi orçado em três milhões
de reais !!!!!!!! !) assumiu gastos e mais gastos, investiu em grandes produções... para poucos! Exagerou no brilho, nas lantejoulas, nos foguetes, nos balões, naquela simpatia tão provinciana que lhe é peculiar, desfilando faceira, cheia das boas e suspeitosas intenções? De uma hora para a
outra ela virou artista encenando o papel de mecenas, protagonista de um discurso, próprio aos amantes das artes. Trouxe para a cena o personagem do Salvador das Artes, atuando diligente, com perfeição exemplar! Mas para quem, foi direcionada sua nova performance?
Quais os escolhidos, quais os beneficiados?
Ao que parece, esta "quase" Cinderela está realizando o seu sonho de 1º mundo: convida e paga os notáveis com gordos cachês , satisfaz desejos que julgávamos inalcançáveis, supre integralmente todas as aspirações de seus eleitos.Vira nobre. Nobre não. Nova rica, esbanjando
dinheiro... para alguns. Para estes, tudo pode! Tudo é possível. Semeia no ar, para os mais ingênuos, os ventos da esperança. A arte tem seu preço e há quem pague por ela! Diante do milagre, vislumbram-se por toda parte rostos felizes, desfilando! Enfim, a CULTURA em BH! Que grande conquista!
Não falta a esta Cinderela, a carruagem, transportando-a nos ares. Tornou-se onipresente. Está aqui, está ali, está acolá, ela antes tão ausente de nossa programação cultural! Solícita, ficou fina. Num piscar de olhos tornou-se amável, dentes à mostra, mãos estendidas cumprimentando a
todos (ou quase todos) beijinhos 1...2...3...e abraços e afagos, milagre! Ficou meiga!!! Sonhamos? Ou deliramos? Ou tudo não passa de um conto de fadas?
E quando a carruagem tornar-se abóbora, e pisarmos o solo de nossa realidade vamos ver que distraídos estávamos encantados. Vamos perceber em meio a tudo isso que... tudo era pura ilusão:
O SOL NÂO É PARA TODOS.
O príncipe voltou a ser sapo.
O sapato não é para o nosso pé.
A festa acabou.
Desfaçam a maquiagem e, diante do espelho perguntem-se:
Espelho, espelho meu. Existe no mundo alguém mais bonito do que eu?
E ele lhe responderá:
Sim existe. Existe sim!
Culpa nossa. Porque colhemos sempre do vizinho a fruta madura, a fruta alheia que não semeamos, e por ela teremos que pagar o preço que nos pedirem. Porque deixamos nossa terra secar, e ela, estéril, nos negará o seu fruto. Porque sem maquiagem, não temos mais rosto e, como sombras
fantasmagóricas, deslizamos sem rumo por entre nossas ruínas. Porque calados, perdemos nossa voz e com ela nossa forma. Nem mesmo dói nosso velho retrato na parede, porque ele já não nos diz mais nada.
O brilho se foi e agora, na obscuridade, caímos na real e nos defrontamos com os subterrâneos de nossa própria submissão, porque isso é tudo o que conhecemos e que somos. Recuperamos nossa tradição de carregar pedras para edificar os "castelos" dos outros. Neste gesto,
repetimos o crime antigo. Calamos nossos heróis. Medrosos, conspiramos. Pisamos de leve, murmuramos e, descalços, nos equilibramos em cima do muro! Estamos desarmados pela nossa própria cumplicidade.
Enquanto isso, a falsa Cinderela, com seus sapatinhos vermelhos ,"valseia" num salão vazio cercada por espelhos bizotados, dando voltas e mais voltas sem nunca poder parar. (Por que não lhe cortamos os pés?) Claro porque, se parasse veria muitas vezes refletido no espelho o seu
triste rosto, e junto a ele, um novo slogan:
Minas não há mais!
(Não é que Drummond tinha razão?)
Então, teria motivos para chorar.
Que soem as matracas porque estamos prestes a enterrar nossa cultura.
Paira no ar o cheiro do cipreste. Toquem os sinos porque em breve irão nos anunciar:
Agora é tarde, Inês é morta.
E mais cedo ou mais tarde, também irão nos perguntar:
Minas não amais?
E de mãos vazias, ficaremos sem resposta.
Mas...como dizia aquele motorista de táxi:
O homem e a barata se adaptam e sobrevivem a toda e qualquer condição, mesmo às mais degradantes!
Sapos coaxem!
Antes que o brejo seque.
SE VOCÊS ACHAM QUE ESTAMOS EXAGERANDO, CONFIRAM OS DADOS!
ORÇAMENTO DO FIT 2004:
R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais)!!!
Tomando como referência um dos mais famosos grupos internacionais, convidados para o FIT 2004, o grupo de Peter Brook, veremos que sozinho ele consumiu do orçamento, só de cachê, uma fatia correspondente ao valor de:
R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais) ou seja, R$ 100.000,00 (cem mil reais por apresentação).
Obs: Não estão sendo computados neste orçamento os gastos referentes a passagens internacionais, estadia, alimentação para toda a equipe, assim como não estão incluídos os custos referentes às adaptações feitas no Teatro Francisco Nunes, segundo exigência da produção, para que o
espetáculo ali se realizasse.
Enquanto isso, apenas no item cachê, ficou escancarada a disparidade de valor oferecido aos grupos de teatro locais, numa discrepância histórica dentro da história dos FITs na cidade de Belo Horizonte.
Vamos conferir:
Cachê destinado aos grupos de teatro locais pela apresentação de um espetáculo..............R$2.000,000 (dois mil reais)
Obs: Convém lembrar que os grupos locais dispensam gastos com estadia, alimentação, e recursos humanos como um tradutor ou acompanhante especializado, o que determina uma economia muito grande para o evento. Levando em conta o orçamento do FIT 2004 justificava-se, um cachê mais digno para os
grupos escolhidos por uma Curadoria, para representarem a cultura de Belo Horizonte dentro de um Festival Internacional.
Não estamos, ainda, revelando o cachê pago ao Grupo Teatro da Vertigem, (S.P. Brasil) pela remontagem de sua trilogia, (o que faremos em breve) mas, dá para calcular o que se gastou com a adaptação de 03 espaços alternativos, uma Igreja, um Hospital e um Presídio, para a realização destes
espetáculos. Sabemos, por exemplo que uma equipe especializada e exclusiva foi contratada para a montagem de luz/som, necessária à realização dos espetáculos, e que no período de pré-produção investiu-se muito para adaptar os referidos espaços às necessidades desta produção.
Com tudo isto, a trilogia do grupo Teatro da Vertigem, atingiu um público alvo de 1.200 pessoas, devido às exigências da produção.Vale lembrar que uma única apresentação de um espetáculo no Grande Teatro do Palácio das Artes comporta 1.707 pessoas.
(Que os mais desavisados, não traduzam esta referência como uma afirmação de que a trilogia do grupo Teatro da Vertigem deveria ter sido realizada no Grande Teatro do Palácio das Artes!!!) Esta citação serve apenas para que as pessoas possam calcular, por comparação, o número de
espectadores que este espetáculo atingiu. Concluiremos que foi correspondente a pouco mais da metade, ou seja 70,3% da lotação do Grande Teatro.
Enquanto isso vamos dar uma olhada nos dados referentes à Cultura na cidade de Belo Horizonte neste ano de 2004:
1 - Como andam os diversos Centros Culturais Regionais, administrados pela PBH:
Centro Cultural Alto Vera Cruz, Centro Cultural da Pampulha, Centro Cultural Inter-Regional Lagoa do Nado, Centro Cultural São Bernardo, Centro de Cultura Belo Horizonte, Espaço Cultural Conjunto Zilah Spósito?
Mal, muito mal. Ao procurarmos os Centros de Cultura da Prefeitura de BH para nos inteirarmos de seus projetos culturais neste ano de 2004, tivemos por parte deles uma resposta unânime:
"A Prefeitura não tem verbas, não tem dinheiro para nada! ".
2 - Como anda o investimento no patrimônio cultural de nossa cidade?
Não anda. Tem uma escada no Centro de Cultura Belo Horizonte, (um patrimônio até então preservado no centro de nossa cidade) que está ameaçada de desmoronar a qualquer momento, implicando riscos de vida para os habituais freqüentadores deste espaço. Mesmo que esta ameaça possa significar a
interdição do prédio, e conseqüentemente o encerramento das atividades realizadas neste Centro de Cultura Belo Horizonte, nada foi feito. Foram calculados R$ 70.000,00 (setenta mil reais) para esta reconstrução, mas não houve força política por parte da Secretaria Municipal de Cultura capaz
de promover a recuperação deste patrimônio. O que justifica este descaso?
3 - Como são tratados os artistas que prestam serviços aos Centros Culturais da PBH ?
Com muito desrespeito. Costumam esperar até 2 meses para receber da Secretaria Municipal de Cultura cachês irrisórios, que as vezes não ultrapassam o valor de R$ 500,00 reais!
4 - Como foi o investimento na produção local por parte da Secretaria Municipal de Cultura de BH?
Neste ano de 2004 não foi destinada nenhuma verba para a montagem de espetáculos locais. Foram muitos os projetos enviados, e nada justifica que nenhum deles tenha sido contemplado pelos benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Vale ressaltar que este item constava no edital da
referida lei. Como conseqüência, assistimos a um visível esvaziamento de estréias neste ano de 2004, reflexo da postura da Secretária Municipal de Cultura que não tem nenhuma conexão com a produção cultural local.
5 - E os antigos evento promovidos pela SMC, tais como Arena da Cultura, Música de Domingo e FIT?
Com exceção do FIT os demais eventos estão diluídos ou esvaziados quando não extintos, não promovendo nenhuma visibilidade para Belo Horizonte. E o site da Secretaria Municipal de Cultura? Pobre, mal feito, um exemplo de péssima
informação, deixando claro que as poucas atividades promovidas pela SMC não são proporcionais à demanda de uma cidade como Belo Horizonte, hoje com 3.000.000 (três milhões) de habitantes.
6 - Como está sendo tratado o material de FITs anteriores?
Sabemos que este material, recolhido ao longo destes anos, está jogado às traças! Isto demonstra não só um desinteresse pela nossa memória; cultural, como também um relaxamento com um patrimônio particular aos FITs anteriores, registro de nossa história e que nos custou muito caro.
Convém informamos a todos que, qualquer cidadão em dia com a justiça, tem direito ao acesso à prestação de contas de qualquer gasto efetuado por uma Secretaria Municipal. O dinheiro público deve ser fiscalizado, e todos deveríamos ter um espaço para opinarmos sobre distribuição de
verbas em qualquer instância da administração pública. Que tal começarmos a nos inteirar de nossos direitos e usarmos de nossa possibilidade de interferir no orçamento participativo de nossa cidade, incluindo a cultura?
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recebi esse e-mails várias vezes...acho uma pena não ter assinaturas, mas reproduzo para quem quiser ler e criticar....