09 A - Carta aos capoeiristas - Simone Pondé Vassallo
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copiado do Jornal da Capoeira do Miltinho
Rio de Janeiro, 05/04/2005
Caros capoeiristas e interessados na capoeira,
Devido às inúmeras reações ao grupo Maíra de
capoeira, suscitadas pelo artigo que escrevi, gostaria de prestar alguns esclarecimentos. Não sou capoeirista, mas sim antropóloga e professora universitária desta disciplina.
Em primeiro lugar, parece-me fundamental esclarecer que
o grupo Maíra não condena, absolutamente, os mestres ou a capoeira tal como é praticada no Brasil, mas apenas certas atitudes extremamente autoritárias veiculadas por alguns mestres e professores. Creio que a grande ruptura por eles elaborada diz respeito ao antigo mestre com quem os fundadores
do grupo treinavam, antes de criarem a associação Maíra. Durante o período em que freqüentei o espaço deles, no final dos anos 1990, pude perceber que sempre houve contato e intercâmbio com inúmeros mestres e professores brasileiros. Os batizados promovidos pela associação são sempre freqüentados
pelos mestres e capoeiristas brasileiros e não brasileiros das outras escolas parisienses e européias. Vários estágios são organizados ao longo do ano com mestres ou professores brasileiros. Os alunos mais adiantados procuram vir ao Brasil sempre que podem. Qualquer brasileiro ou indivíduo de
outra nacionalidade, desde que vindo com boas intenções, é sempre recebido de braços abertos. Aliás, é sempre assim que fui recebida por eles, para quem nunca ocultei a minha identidade de pesquisadora brasileira.
Não me parece que a atitude dos integrantes da Maíra
seja assim tão distinta da de inúmeros outros capoeiristas. Sabemos que o mundo da capoeira é repleto de brigas e dissidências entre mestres e alunos e que é relativamente comum que novos grupos surjam a partir dessas disputas. Sabemos também que é muito comum que os grupos de capoeira
critiquem outros grupos. Os angoleiros não estão permanentemente criticando a Regional? Os praticantes de Regional não estão constantemente dirigindo críticas uns aos outros? Os angoleiros não criticam a insuficiência de fundamentos de outros angoleiros? Será que uma forma única de se
pensar e de se praticar a capoeira seria algo salutar? Ou não seria melhor manter a riqueza de interpretações, leituras e apropriações da mesma? Por que essa obsessão pela padronização da luta? Por que os gringos não podem fazer suas próprias reflexões sobre a luta afro-brasileira? Não
seria uma atitude extremamente autoritária achar que só os brasileiros têm o privilégio de pensar, questionar e buscar a sua própria resposta para a capoeira que está sendo praticada por aí? Sinceramente, não me parece que a capoeira praticada pela associação Maíra seja tão deturpada ou
diferente do imenso leque de opções de formas de se jogar capoeira que temos hoje no Brasil.
Em segundo lugar, estou me sentindo extremamente responsável por estar veiculando a imagem de um grupo que não é
mais do que a MINHA INTERPRETAÇÃO, e não um retrato fiel e transparente da realidade. Outras pessoas, inclusive os próprios membros da Maíra, podem ter leituras bastante diferenciadas da mesma. Além do mais, o artigo baseia-se em observações feitas até o ano 2000. Portanto, muita coisa pode
ter mudado, desde então. Tenho a impressão de que o grupo ficou extremamente mal afamado por conta de um artigo meu, e não por um contato direto entre os integrantes da Maíra e os que o estão criticando. Não seria mais justo emitir uma opinião mais coerente sobre o grupo só depois de
conhecer de fato o seu trabalho?
Em terceiro lugar, o artigo que escrevi não tem a menor condição " nem era essa a proposta " de abarcar
a totalidade da proposta do grupo Maíra, mas, apenas, uma ínfima parcela da mesma. Ele faz parte de um trabalho muito maior, que consiste na minha tese de doutorado, que analisa também a capoeira no Brasil. Portanto, selecionar alguns trechos para, a partir daí, condenar a atuação desses
franceses, é tomar a parte pelo todo, e não me parece a atitude mais sensata a ser adotada.
Esperando poder contar com a compreensão de todos vocês,
Simone Vassallo