08 - A Capoeira Escrava - Carlos Eugênio Líbano Soares
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recebido por e-mail:
Daniel Buarque - da Redação
(Folha de São Paulo, domingo, 26 de setembro de 2004)
A Capoeira Escrava
610 págs., R$ 55,00
de Carlos Eugênio Líbano Soares. Ed. Unicamp (caixa postal 6.074, r.
Caio Prado, 50, Cidade Universitária, CEP 13083-892, Campinas, SP,
tel. 0/xx/19/ 3788-7235).
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A construção social da violência
Estudo aponta que a capoeira ocupava no imaginário do Rio de Janeiro
do século 19 lugar e função semelhantes aos do narcotráfico,
atualmente Longe da expressão lúdica e popular que hoje representa sobretudo
uma cultura e um esporte, a capoeira surgiu no Brasil do século 18
como símbolo da luta contra a ordem policial e repressiva, marcada
pela violência e criminalidade. Para o historiador Carlos Eugênio
Líbano Soares, 42, um dos poucos especialistas no Brasil em "cultura
escrava" urbana, a capoeira era alvo da disputa de interesses que
envolviam política e violência. Segundo ele, ela pode ser comparada
ao crime organizado dos dias de hoje.
Líbano Soares encontrou na capoeira a principal expressão da cultura
escrava no meio urbano no século 19, especialmente na cidade do Rio
de Janeiro, área em que concentrou mestrado e doutorado. "Muito se
sabia sobre a escravidão, mas quase todos os estudos são voltados ao
meio rural, a fazenda, o engenho, a senzala. O meu interesse era
estudar a cultura do escravo na cidade, como se construiu a
identidade negra e a imagem do negro no meio urbano", disse em
entrevista ao Mais!. A pesquisa de doutorado, "A Capoeira Escrava -
E Outras Tradições Rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850)",
publicada pela primeira vez em 2001, ganha agora reedição.
O que era a capoeira como fenômeno sociológico?
A capoeira é uma combinação de diversas partes africanas -não veio
pronta da África-, construída na escravidão. Ela nasce como um
espaço de defesa e de afirmação física do escravo no ambiente urbano
mas também como forma de socialização. O grupo é que defende o
indivíduo, não é uma coisa individualista.
E onde aparece a tradição rebelde da capoeira?
Na verdade, no século 19 a capoeira era uma questão criminal, não
uma questão cultural. Ela foi uma das tradições rebeldes mais
diretamente conflitantes com a ordem escravista. Ela era a única que
enfrentava diariamente a repressão, tanto que a violência da
repressão do Estado colonial e imperial era maior sobre os escravos
capoeiras, que chegavam a receber 300 chibatadas, que é o mesmo que
condenar à morte. Não há nenhum crime, nenhuma prática escravista
com uma punição tão severa quanto a capoeira, porque ela
possibilitava ao escravo, mesmo que franzino, enfrentar diretamente
a ordem do Estado policial.
Qual o lugar do capoeira na sociedade?
Em relação ao poder privado, aos seus donos, os escravos capoeiras
tinham muito mais harmonia do que em relação ao poder público. A
capoeira era tolerada porque era praticada no espaço das ruas. Para
o senhor só interessava o que acontecia dentro de casa. E os
escravos eram usados como capangas, então a capoeira não era uma
ameaça direta à escravidão, ela era uma ameaça direta à ordem
pública, ao Estado.
Existe alguma relação direta entre a capoeira e os movimentos de
resistência à escravidão?
Temos que pensar na capoeira como uma arma importante no espaço
urbano de enfrentamento contra o Estado e entre grupos urbanos. Ela
foi usada contra portugueses, contra irlandeses, mas sempre
articulada com outros movimentos. Não há indícios de uma ação
política exclusivamente da capoeira. Ela está fragmentada: grupos
escravos que agem de forma espalhada na cidade e de forma difusa. Se
houvesse uma articulação, ela possivelmente teria um papel político
maior.
Em relação à resistência à escravidão, o fenômeno mais conhecido é o
dos quilombos, que era estritamente rural. Quais as diferenças entre
a resistência desses quilombos e a dos capoeiras?
O quilombo é uma forma de luta ligada à mobilidade. Raramente o
quilombo enfrenta diretamente as forças repressoras. Já a capoeira
foi criada como o enfrentamento do escravo no meio urbano. Ela se
assemelha um pouco a uma guerra de guerrilha, no labirinto da
cidade. Quilombo e capoeira são formas de resistência diferentes
para diferentes tipos de escravidão, a primeira para o meio rural e,
a segunda, para o meio urbano.
A que outros movimentos históricos se pode ligar a capoeira? Quem
seriam os capoeiras de hoje?
A capoeira no século 19 é temida como uma espécie de crime
organizado. Havia vários tipos de crime no Rio à época, mas, quando
a polícia se refere à capoeira, se refere como aqueles que enfrentam
diretamente. Grupos que têm proteção política, impunidade, que
conseguem enganar a polícia e a própria Justiça, que têm elementos
da classe dominante que os protegem, que trabalham como capangas e
servem a uma certa ordem política conservadora, e por isso não são
presos. O discurso contra a capoeira no século 19 se assemelha ao
discurso contra o crime organizado, o tráfico de drogas. Um crime
rendoso, com uma rede de proteção muito grande, com pessoas da alta
sociedade envolvidas, protegendo e mantendo esses grupos e por isso
garantindo a impunidade deles. Eram os políticos que contratavam os
capoeiras para se livrar de seus rivais. No imaginário da classe
média da época, a capoeira ocupava um lugar semelhante ao ocupado
hoje pelo crime organizado e pelo tráfico de drogas no imaginário da
mesma classe média.
Qual a relação existente entre a capoeira e a violência urbana no
século 19?
Ela nasce como forma de defesa do escravo contra a violência, mas se
torna um vetor da violência urbana. Há uma visão muito romântica,
que eu combato, de que o escravo quer a liberdade acima de tudo. Na
verdade ele está dentro de uma sociedade em que a violência já
existia, a capoeira reage a isso, mas também passa a influenciar
essa violência.
Havia lutas de grupos por domínios geográficos, uma questão de poder
organizado de um Estado paralelo. Cada freguesia do Rio tinha um
grupo diferente. Quando outro invadia seu espaço, era a senha para o
confronto. Havia um controle informal, uma geografia inquieta
semelhante à atual guerra das drogas. Assim como hoje há, no Rio, o
Comando Vermelho e o Terceiro Comando, havia na época nagoas e
guaiamus. Os nagoas dominavam a periferia, são grupos de origem
africana, e os guaiamus dominavam o centro da cidade. Eles estavam
disputando espaço o tempo todo e em confronto constante também com a
polícia.
A partir de 1870, quando surgem os interesses políticos, a polícia
passa a ser tolhida pelo poder político. A política interfere na
polícia, assim como acontece hoje. E a polícia, ao invés de ser
vetor da ordem, passa a ser vetor da desordem, por conta da
corrupção e dos interesses políticos envolvidos na manutenção dos
capoeiras. É uma verdadeira luta por espaço, pelo espaço da economia
urbana. O escravo era trabalhador, e a capoeira é importante na
afirmação desse trabalhador urbano, ao contrário da visão
preconceituosa que chamava os capoeiras de preguiçosos.
E o que é a capoeira hoje em dia?
Ela ainda é uma manifestação violenta, mas apenas episódica e
residual. No século 20, por meio dos mestres Bimba e Pastinha, surge
a capoeira baiana, que era quase inexistente durante o século 19.
Ela agora é transformada num evento cultural e esportivo, saindo do
mundo do crime, se transformando um evento lúdico, popular. É como
falar, hoje, que no século 22 o tráfico pode ser tratado como
cultura. Dizer, hoje, que o tráfico é cultura é de espantar; o mesmo
espanto era causado ao chamar a capoeira de cultura no século 19.